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    <title>ultimosuspiro @ 2004-11-11T23:13:00</title>
    <published>2004-11-11T23:05:03Z</published>
    <updated>2004-11-11T23:05:03Z</updated>
    <content type="html">Anjos dormem sobre as sobrancelhas das águas,&lt;br /&gt;enquanto a lua serpenteia à superfície,&lt;br /&gt;molhada de cores e reflexos,&lt;br /&gt;nua, crua, suplicando que as águas&lt;br /&gt;deixem que seja o espelho das asas,&lt;br /&gt;gritando a boca que devora os lábios,&lt;br /&gt;gritando as pernas que devoram os joelhos,&lt;br /&gt;e todos os membros caíndo fora de si&lt;br /&gt;devorando-se a si próprios na mobilidade&lt;br /&gt;que os atrai,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gotas de chuva caem a desfazer a lua,&lt;br /&gt;e o lençol de água assemelha-se a cataratas,&lt;br /&gt;ondulantes como cortinas&lt;br /&gt;parecem plástico que rasga a lua&lt;br /&gt;e se insere como pedaços recortados na sua forma,&lt;br /&gt;uma lua que é no fundo uma espiral&lt;br /&gt;marejada de água, marejada de recortes da cor&lt;br /&gt;do queijo sem perspectiva,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece um disco-voador&lt;br /&gt;por sobre as águas cujo negro se agita,&lt;br /&gt;e dança frenéticamente a distorcer-se,&lt;br /&gt;primeiro com rosto, agora opaco,&lt;br /&gt;numa mistura de rabiscos,&lt;br /&gt;numa dança ubíqua, quer dentro&lt;br /&gt;de si mesma, quer fora por sobre as águas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um peixe gigante sobe do fundo das águas&lt;br /&gt;e vem beijar este estranho objecto-lua,&lt;br /&gt;acarreta-o na sua boca e principia o vôo&lt;br /&gt;começa a ir de encontro ao céu,&lt;br /&gt;as escamas deitam feixes de luz,&lt;br /&gt;e todo o céu se raia de brancura&lt;br /&gt;até perder-se de vista.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-11-11T03:24:00</title>
    <published>2004-11-11T03:16:43Z</published>
    <updated>2004-11-11T03:16:43Z</updated>
    <content type="html">Agora que foste já não tenho sandálias&lt;br /&gt;nem o intenso cuidado da dedicação&lt;br /&gt;tenho uma bússola de pedra , uma pedra&lt;br /&gt;um objecto que agarro com a força&lt;br /&gt;de não ter onde o largar&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;juntaste os trapos e caminhaste sem palavras&lt;br /&gt;atirei-te um beijo ias já nas berlengas&lt;br /&gt;a falar espanhol com um casaco soviético ,&lt;br /&gt;aqueles quase mantos que te mascaram&lt;br /&gt;por não teres onde te largar&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;as palavras , as fórmulas , a mudez , por fim&lt;br /&gt;de te conhecer tão de perto que a carne é a mesma&lt;br /&gt;que nada traz de novo a nudez&lt;br /&gt;que já ando descalça há tanto tempo ,&lt;br /&gt;e os meus pés fazem parte desta terra&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;eu sei que até ao outro lado do mundo&lt;br /&gt;há sandálias de ouro , objectos e adornos&lt;br /&gt;algo de bravo e de estrondoso ,&lt;br /&gt;mas posso estar aqui a imaginar&lt;br /&gt;como seria se esta terra fosse o mundo ,&lt;br /&gt;ou um inferno para o meu corpo largado&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;a alma está doente , o sonho caíu&lt;br /&gt;na ressurreição do corpo , vampira&lt;br /&gt;ando nas ruas de pedra na mão&lt;br /&gt;julgando a magia , o ouro , a letargia&lt;br /&gt;e não a quero largar .</content>
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    <title>o homem sonha de negro</title>
    <published>2004-11-11T03:05:41Z</published>
    <updated>2004-11-11T03:05:41Z</updated>
    <content type="html">o homem sonha de negro, quando a colheita foi arrastada pelas águas, e o sol cristalizou as lágrimas sem alimentar a boca. tem duas mulheres na cama, dois cérebros que morreram da sua contradição. tem duas bruxas na sua cabeça, dois cérebros tementes a Deus que fazem com que os braços percam a velocidade nas colheitas, percam a vontade mesmo antes de o saberem morto. o homem atravessa o campo com uma pressa particular, mesmo antes do nascimento do sol, vai contra o rio e, feiticeiro, faz com que águas inundem todo o campo, embrenha-se no lençol de água e é cristalizado ao nascer do sol. está no meio do rútilo, e agora não é triste o homem, agora conjuga-se numa apatia de clarividência e de perfeição. desdobra os braços a custo e o cristal parte. o campo está queimado, ruíu com a sua imortalidade. o homem tem duas arestas, o sol a chuva… as lágrimas na sua face enxugada são a área do seu desespero que se desvanece antes de ser definido. é um quadrado ou o rectângulo ou a supremacia perante a deficiência de Pitágoras. o homem é hectares de campo e de maravilha. mas sonha de negro. busca rapidamente nos bolsos algo de sóbrio e de concreto, mas as palavras maculam-se à nascença. só aquele quadrado de campo… esconde-se rapidamente num dos vértices e conta histórias. conta a história dos feudos e das lâminas apertando as goelas. conta a história do azul do céu ser a salvação do paraíso, e diz que vê, ele vê o campo pairando por cima dele. e morre de angústia. ninguém consegue sublimar sem angústia. acorda cedo, percorre o campo todo sempre à procura de algo nos bolsos enquanto vê o campo a pairar por cima dele… e grita canções muito estridentes de agonia. volta a casa e senta-se ao piano sem memória.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-10-18T17:10:00</title>
    <published>2004-10-18T16:03:41Z</published>
    <updated>2004-10-18T16:03:41Z</updated>
    <content type="html">É miserável a minha condição:&lt;br /&gt;encetei um rumo norteado,&lt;br /&gt;digamos que sem cabeça,&lt;br /&gt;mas logo aconteceu o recado:&lt;br /&gt;não dar ouvidos ao que vejo.&lt;br /&gt;Adubo o sentido duma forma&lt;br /&gt;que é errada à partida,&lt;br /&gt;já não sei que aresta sondar&lt;br /&gt;se a imagem assim mo diz,&lt;br /&gt;e vejo mas não ponho por escrito,&lt;br /&gt;a secção de imagens é no cinema.&lt;br /&gt;Vou dar ouvidos à última&lt;br /&gt;das concepções criadas,&lt;br /&gt;mas se aquela é uma imagem,&lt;br /&gt;logo me traz o olvido,&lt;br /&gt;não basta um segmento&lt;br /&gt;quanto mais um batido.&lt;br /&gt;Se do A vamos para o B&lt;br /&gt;então eu sou o desnorte,&lt;br /&gt;talvez nem C me sobeje,&lt;br /&gt;para a mediana da antítese.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-10-18T17:09:00</title>
    <published>2004-10-18T16:02:30Z</published>
    <updated>2004-10-18T16:02:30Z</updated>
    <content type="html">Para quê falar de roupa velha&lt;br /&gt;quando o assunto é a morte de um estrangeiro?&lt;br /&gt;Ficava lá na terra dele tão distinto&lt;br /&gt;e dava de comer ao perdigueiro.&lt;br /&gt;Era homem com sombras pelos cantos&lt;br /&gt;porque ao centro não há certo nem errado,&lt;br /&gt;menos um N e centro fica certo&lt;br /&gt;mas tem que se trocar o R letra depois,&lt;br /&gt;e o canto cantam todos os catetos,&lt;br /&gt;paredes inocentes da verdade.</content>
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    <title>O demente</title>
    <published>2004-10-18T16:01:50Z</published>
    <updated>2004-10-18T16:01:50Z</updated>
    <content type="html">Tem mais piada contar uma história verídica? Ou uma história inventada? E história não é estória. Mas quando a estória é ilusória, então história será. Porque de ilusão geralmente se vive, e uma história não é encantada. Mas filosofemos... Que o dia não pode ser gasto na capela! E um bom filósofo é ateísta! Não gasta o vinho sem o analisar. E quando é vinho é "produto das uvas ultra" porque o filtro da "máquina absoluta" fez com que de U lamentasse tristeza ritual aliciante. Mas passam todos os dias na capela! E eu que sou um "non-plus-ultra" em conjugar orações para que delas saia um bom discurso de padre, e rio com os amigos de "Padre o teu ventre é um fruto" falo comigo e ainda como uma ameixa. Em conversas de alter-ego teatro faço mas com lógica! Um pouco de psicanálise nunca falta ao bom filósofo! E se falo em solilóquio descabido é porque tem lógica juntar as palavras num só tecido! Mas sem contexto não pode ser... Mas ponho um ponto e uma maiúscula! "Padre. O teu ventre é um fruto." Padre! Padre Padre! Isto sou eu a ralhar comigo... O teu ventre. Ok. Passo. O teu ve(n)cto-r(e), o teu vento! Ai que coqueluche... De atritos de oiro. Como todas as cerejas cristalizadas da tua coqueluche... Sim! Já sou um poeta! Vem direito a mim esse vector, e eu em vez de fugir fico no mapa dos criminosos. Estou em Praga! Que bom! Encontrei o meu Odradek que me disse que eu sou filósofo. Pronto, e isto é a minha filosofia. Eh pá desculpem, não aprendi lógica. O bom filósofo sabe lógica! E isto não tem lógica nenhuma. Mas quem sou eu? Algum poeta? Talvez seja um demente-assumido!</content>
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    <title>Eu, tu, a sombra</title>
    <published>2004-09-20T18:17:05Z</published>
    <updated>2004-09-20T18:17:05Z</updated>
    <content type="html">Vieste ter comigo com os braços ensanguentados&lt;br /&gt;talvez da penumbra em que te envolveste,&lt;br /&gt;por vezes, a penumbra faz com que o corpo se fira,&lt;br /&gt;o mistério expedito dos buracos negros, as espirais&lt;br /&gt;a remoerem na pele sensível, o som baralhado cheio de ecos&lt;br /&gt;na boca fulva da entrega,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vieste ter comigo tinhas a sombria face em ruínas&lt;br /&gt;os braços feridos, estragados, lançados para o ar&lt;br /&gt;a tristeza de um remorso que te empatou a necessitada&lt;br /&gt;simpatia que poderias vir a ter com quem te rodeava,&lt;br /&gt;o cansaço de uma tensão que lentamente te foi comendo&lt;br /&gt;os músculos já insones, já usados giratoriamente,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não te reconheci o corpo que me dirigias tentando&lt;br /&gt;vociferar algumas palavras elucidativas, uma mescla&lt;br /&gt;de ti e de sombrio, talvez tenhas escondido a sombra&lt;br /&gt;desde os tempos em que primeiro te conheci, talvez&lt;br /&gt;tenhas andado com ela dentro dum coração cheio de reboco&lt;br /&gt;que não tivesse conseguido aguentar irrespirável&lt;br /&gt;até agora que a mostras,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Fechei os olhos ainda confusa de me teres interpelado&lt;br /&gt;dum modo que eu juraria nunca ouvir a música mais&lt;br /&gt;comovente e louca ao mesmo tempo,&lt;br /&gt;fechei os olhos e fingi lembrar-me que eras tu&lt;br /&gt;que me tinhas acompanhado a primeira visita ao mundo,&lt;br /&gt;quando havia muita luz, e eu me admirava ainda a medo,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Agora já não havia luz,&lt;br /&gt;mas agora também não via nem a ti, nem à sombra,&lt;br /&gt;agora fechei os olhos e adormeci um sono tão profundo&lt;br /&gt;que apenas acordei quando a sombra desapareceu.</content>
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    <title>Apetece-me escrever um poema</title>
    <published>2004-09-11T06:49:59Z</published>
    <updated>2004-09-11T06:49:59Z</updated>
    <content type="html">Apetece-me escrever um poema&lt;br /&gt;Um poema incolor&lt;br /&gt;Um poema com nome de poema&lt;br /&gt;Um poema discreto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tive jeito para poemas&lt;br /&gt;Nem tampouco tenho as tuas mãos&lt;br /&gt;Se fossem necessárias mãos para escreverem poemas&lt;br /&gt;Então eu não escreveria poemas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu escrevo poemas&lt;br /&gt;Mesmo sem jeito os escrevo&lt;br /&gt;Mesmo sem as tuas mãos os escrevo&lt;br /&gt;Ai, se fossem necessárias as tuas mãos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apetece-me mesmo escrever um poema&lt;br /&gt;Mas que hei-de fazer&lt;br /&gt;Se estou a escrevê-lo sem mais não?&lt;br /&gt;Um poema incolor&lt;br /&gt;Um poema discreto&lt;br /&gt;Que hei-de fazer&lt;br /&gt;Se não o estou, realmente, a escrever?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tive jeito&lt;br /&gt;Tu dizes o oposto, fartas-te de dizer o oposto&lt;br /&gt;Porque as tuas mãos&lt;br /&gt;As tuas mãos o recebem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que estou a fazer aqui?&lt;br /&gt;Quem és tu, folha de papel?&lt;br /&gt;Como vim aqui parar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um poema como um deserto&lt;br /&gt;Um poema como uma vida&lt;br /&gt;Um poema sem nome&lt;br /&gt;Conseguirei escrevê-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apetece-me escrever um poema&lt;br /&gt;Um poema que venha da juventude das tuas mãos&lt;br /&gt;Ou que venha da cor de cal da tua face&lt;br /&gt;Da tua face de papel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas continuo sem o escrever&lt;br /&gt;Mas continuo a escrevê-lo&lt;br /&gt;E tu queres descanso&lt;br /&gt;E tu queres&lt;br /&gt;Um poema discreto</content>
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    <title>Não consigo criar a beleza dos adornos</title>
    <published>2004-09-10T10:50:03Z</published>
    <updated>2004-09-10T10:50:03Z</updated>
    <content type="html">Não consigo criar a beleza dos adornos&lt;br /&gt;Venho do tempo remoto que lançou&lt;br /&gt;O seu ceptro incadescente sobre meus braços&lt;br /&gt;E agora só sei o que calcina&lt;br /&gt;E agora só sei desarmar&lt;br /&gt;E agora venço derrotada a realidade.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não consigo criar a beleza dos adornos&lt;br /&gt;Não tenho mãos macias de as cuidar&lt;br /&gt;Jamais as multipliquei por mil&lt;br /&gt;Para que o hábito de as verem fizesse com que as amassem&lt;br /&gt;Jamais as levei ao rosto&lt;br /&gt;Para beijá-las solenemente entre as lágrimas salgadas&lt;br /&gt;De um mar amável.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não tenho os lábios loiros de beijar&lt;br /&gt;As mãos macias de oiro e de magia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não tenho a magia&lt;br /&gt;A magia&lt;br /&gt;As canções ou outro dom&lt;br /&gt;Não consigo criar a beleza dos adornos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não consigo criar a beleza dos adornos&lt;br /&gt;Responder em tempo móvel à maldade&lt;br /&gt;À maldade que me têm&lt;br /&gt;À maldade que lhes tenho porque não consigo&lt;br /&gt;Não consigo criar a beleza dos adornos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não consigo amá-los&lt;br /&gt;Não consigo amar cada um em sua concha&lt;br /&gt;Essas pérolas aquáticas que me cantam&lt;br /&gt;Que cantam sozinhas e com vida&lt;br /&gt;Oh, e que cantam sem mim!&lt;br /&gt;Cantam sem mim e eu não consigo&lt;br /&gt;Não consigo criar a beleza dos adornos.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-09-10T11:54:00</title>
    <published>2004-09-10T10:49:09Z</published>
    <updated>2004-09-10T10:49:09Z</updated>
    <content type="html">Varia a época do beijo&lt;br /&gt;Estático sob o tecto memorável&lt;br /&gt;Atrevo-me a desexistir-te&lt;br /&gt;A desexistir-nos&lt;br /&gt;A descobrir artefactos tão óbvios&lt;br /&gt;Na acção manual impensada&lt;br /&gt;Será que o impossível do amor nos faz recordar&lt;br /&gt;Aquele beijo junto ao rio?&lt;br /&gt;Ou o amor eregido num deserto de beijos&lt;br /&gt;Nos faz estimar os únicos?&lt;br /&gt;Atrevo-me&lt;br /&gt;Atrevo-me&lt;br /&gt;Sabes que nunca me contaste de como&lt;br /&gt;Foi aquele beijo junto ao rio?&lt;br /&gt;Que nunca sentiste um arrepio na pele&lt;br /&gt;Ao recordar a existência do meu corpo?&lt;br /&gt;Variam as épocas, os apetites&lt;br /&gt;A necessidade do teu corpo preencher-me&lt;br /&gt;Encher-me de vidro fofo, de relevos&lt;br /&gt;Por tocar o teu&lt;br /&gt;E eu atrevo-me&lt;br /&gt;A desexistir-te&lt;br /&gt;Vou agora&lt;br /&gt;Vou agora recordar pela primeira vez&lt;br /&gt;Aquele beijo que demos na saleta que faz esquina&lt;br /&gt;Com um candeeiro muito largo de ferro forjado&lt;br /&gt;Um candeeiro gigante, um candeeiro que parece&lt;br /&gt;O fantasma duma árvore que parece uma pessoa,&lt;br /&gt;Um candeeiro que tinha uma luz que contornava&lt;br /&gt;A esquina e se deitava na parede de esquina&lt;br /&gt;Da saleta que faz esquina com o candeeiro&lt;br /&gt;De ferro forjado.&lt;br /&gt;Vou morrer&lt;br /&gt;O meu corpo vai desaparecer aos poucos&lt;br /&gt;À medida que me vou recordando daquele beijo&lt;br /&gt;O meu corpo vai aparecer aos teus olhos&lt;br /&gt;Vais-te recordar exactamente, e à medida,&lt;br /&gt;Do meu corpo à frente dos teus olhos&lt;br /&gt;Dentro da tua cabeça&lt;br /&gt;O meu corpo que vais ter vontade de possuir&lt;br /&gt;O meu corpo que nunca existiu&lt;br /&gt;Vou-me recordar pouco a pouco daquele beijo&lt;br /&gt;«Momento de pausa»&lt;br /&gt;Ainda não me recordei&lt;br /&gt;Ainda não me recordei&lt;br /&gt;Vou-me recordar da carícia com a língua&lt;br /&gt;Já não sei se a tua ou a minha&lt;br /&gt;Agora é só a língua&lt;br /&gt;A língua isolada numa carícia&lt;br /&gt;Já não sei se a tua ou a minha&lt;br /&gt;Agora já não há beijo&lt;br /&gt;Agora há só uma pequena parte do beijo&lt;br /&gt;Que se vai desvanecendo&lt;br /&gt;O meu corpo que ia desaparecer vai aparecendo&lt;br /&gt;Vai aparecendo e nunca desapareceu e nunca apareceu&lt;br /&gt;E nunca apareceu aos teus olhos&lt;br /&gt;E o meu corpo desexistiu-se&lt;br /&gt;Atrevo-me&lt;br /&gt;Nós desexistimo-nos&lt;br /&gt;E o meu corpo está aqui como sempre esteve&lt;br /&gt;E tu estás aí&lt;br /&gt;Sossegado em andamento e nunca viste o meu corpo&lt;br /&gt;E eu vou andar, também, um bocado&lt;br /&gt;Passear à beira rio&lt;br /&gt;Atrevo-me&lt;br /&gt;Atrevo-me.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-09-10T11:54:00</title>
    <published>2004-09-10T10:48:34Z</published>
    <updated>2004-09-10T10:48:34Z</updated>
    <content type="html">quis apenas um sol abertas as portas&lt;br /&gt;abertas as flores aberto o céu à ira&lt;br /&gt;aberto o caminho de uma longínqua agulha&lt;br /&gt;a camada da delícia a camada do beijo&lt;br /&gt;o fundo mais ténue de uma luz envolvente&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;quis apenas conhecer os segredos de um deus&lt;br /&gt;como arrastaria o sol pelos campos&lt;br /&gt;como se voltaria de costas ao poente&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;vivi em tempo de luz o martírio a cruz&lt;br /&gt;fui poeta embriagado decadente abandonado&lt;br /&gt;recusei as primaveras das nascentes&lt;br /&gt;consumi o discurso de um labor consumado&lt;br /&gt;e de arado cultivei a sépia apaixonada&lt;br /&gt;de momentos desejosos de se encarcerar&lt;br /&gt;nas colinas de um sonho mais profundo&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;quis apenas um sol uma descoberta um lamento&lt;br /&gt;um toque das ciências que vazam seus dedos&lt;br /&gt;em interditas poeiras que cheiram a alecrim&lt;br /&gt;em ruas desertas em ruas desertas&lt;br /&gt;no mistério da juventude mais em flor que o tempo&lt;br /&gt;que o tempo interditado e contado e consumado&lt;br /&gt;pelas fragas de uma falésia iluminada&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;quis apenas estragar o tecido da luz&lt;br /&gt;num relâmpago absorver toda a inércia&lt;br /&gt;cantar brevemente uma música resistente&lt;br /&gt;quis apenas um sol abertas as portas&lt;br /&gt;abertas as portas.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-08-29T16:28:00</title>
    <published>2004-08-29T15:29:01Z</published>
    <updated>2004-08-29T15:29:01Z</updated>
    <content type="html">Alegremente pegas fogo a uma flor&lt;br /&gt;Sem olhar à vida que atinge o corpo&lt;br /&gt;Ao odiável estremecimento de vida&lt;br /&gt;À última respiração adoecida&lt;br /&gt;Alegremente e sem olhar a vês em cinzas&lt;br /&gt;Grávida de ti e da riqueza&lt;br /&gt;De lhe teres dado o dióxido de carbono&lt;br /&gt;Do mundo que a privou de autonomia&lt;br /&gt;Alegremente pegas fogo a uma flor&lt;br /&gt;O corpo atómico e célere e deitando fumo&lt;br /&gt;Junto à flor que achaste entre muitas&lt;br /&gt;O corpo rasgado de suor, soprando calor&lt;br /&gt;A flor - rica, inerte, no auge -,&lt;br /&gt;Vais a passar, deitas-lhe um olhar mentiroso&lt;br /&gt;Vais a passar&lt;br /&gt;Vais de passagem&lt;br /&gt;Alegremente pegas fogo àquela flor&lt;br /&gt;Flor única doente já morta&lt;br /&gt;Flor&lt;br /&gt;Flor morta&lt;br /&gt;Podia ser um nome de mãe, um nome de avó&lt;br /&gt;Podia ser um nome doente, um nome de louca&lt;br /&gt;A flor estendida no chão em cinzas&lt;br /&gt;Respirando o último segundo da tua boca&lt;br /&gt;Julgando-se com sorte por ainda roçar o teu corpo&lt;br /&gt;Depois morta&lt;br /&gt;Flor morta&lt;br /&gt;Alegremente.</content>
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    <title>DOS NORTES ME SAÚDAS</title>
    <published>2004-08-09T21:54:49Z</published>
    <updated>2004-08-09T21:54:49Z</updated>
    <content type="html">Vi-te ao longe, ainda nítida, mostravas a cara cosida&lt;br /&gt;Numa flor soturna desmembrada, dando a perceber&lt;br /&gt;Uma mancha d'água das veias que imigraram&lt;br /&gt;No espaço de um olhar desligado de seu redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destruiste os contactos da distância circular&lt;br /&gt;E, num rodopio, beijaste a clarabóia das lamúrias&lt;br /&gt;Como se a propulsão te enformasse com misericórdia&lt;br /&gt;E o teu coração destilasse aço doce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na distância de um imprevisto contornei-te&lt;br /&gt;E o céu assistiu a loucura do vácuo na linguagem&lt;br /&gt;Retornei a casa sem um pássaro no pulso cortado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desabou a fronteira de teus nervos nus&lt;br /&gt;Voaste, correnteza, no âmago fértil do incêndio&lt;br /&gt;Deixando cair as pernas no vento.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-08-05T00:55:00</title>
    <published>2004-08-04T23:51:47Z</published>
    <updated>2004-08-04T23:51:47Z</updated>
    <content type="html">Prioritário é o salto do lugar que redime&lt;br /&gt;             A voz construída num momento&lt;br /&gt;             Despeço-me dos espectadores agredidos agressores&lt;br /&gt;             Encontro um estilhaço inomeável numa sombra&lt;br /&gt;             E o rastro desenvolve o que eu abdico nos mitos&lt;br /&gt;             Uma madeixa perdida num agrupamento de manchas&lt;br /&gt;             Me admiro de estar de saúde ainda&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nas casas as estrelas desagradam&lt;br /&gt;             A movível condição das janelas aos cantos&lt;br /&gt;             Deitadas esticadas para não ferir os dedos porque são vidro&lt;br /&gt;             E a abertura é o perigo de estarem à vista&lt;br /&gt;             Os cantos onde escondemos os tesouros&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Prioritário é o anestesiar do contrapeso&lt;br /&gt;             Em poucas palavras uma ajuda ao momento&lt;br /&gt;             Em que não temos braços para segurá-lo&lt;br /&gt;             Ainda&lt;br /&gt;             Uma precaução com a boquiabertura inflamável&lt;br /&gt;             E destemermo-nos do fica para lá das colinas&lt;br /&gt;             Quando nos viramos de costas para Marte&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Uma verdade diluída na desatenção&lt;br /&gt;             Pois as flores se multiplicam com o vácuo&lt;br /&gt;             Estoirando a névoa dos espinhos&lt;br /&gt;             No tímpanos suicidários já em ruínas que se liquefazem&lt;br /&gt;             Dos rastros que deixámos nos quintais.</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-08-04T05:56:00</title>
    <published>2004-08-04T04:52:04Z</published>
    <updated>2004-08-04T04:52:04Z</updated>
    <content type="html">Não admiraria se bebesses os espinhos&lt;br /&gt;Isto numa falácia ao horizontal&lt;br /&gt;Se é que me entendes:&lt;br /&gt;O abrigo das palavras tolhe-se&lt;br /&gt;Uma nevrite doente ocasiona a semente&lt;br /&gt;E num desatino onde desembocam as células&lt;br /&gt;A ave atordoada deixa cair os olhos&lt;br /&gt;Na neve cantante do equinócio&lt;br /&gt;Nascem assim os meus dedos duros&lt;br /&gt;Não admiraria se os bebesses.</content>
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    <title>Pautas os teus braços pela sombra</title>
    <published>2004-08-04T04:50:20Z</published>
    <updated>2004-08-04T04:50:20Z</updated>
    <content type="html">Pautas os teus braços pela sombra&lt;br /&gt;Que acolhe o osso das folhas&lt;br /&gt;O desmaio da cor da luz&lt;br /&gt;São efémeros teus braços naturais&lt;br /&gt;Pois a linguagem corrente&lt;br /&gt;Só me permite dissipá-los&lt;br /&gt;À sombra de uma árvore ramificada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Monótono é o canto sempre igual&lt;br /&gt;Nas palavras que se cantam várias vezes&lt;br /&gt;A sombra respeita a direcção&lt;br /&gt;Mas o teu sentido não,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pautas os teus braços pela sombra&lt;br /&gt;Deixa-los ficar caídos levemente&lt;br /&gt;Sobre a folhagem já despida&lt;br /&gt;De sequência decrescente crescente&lt;br /&gt;Pois o vento assim o proporciona,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São como folhas os teus braços&lt;br /&gt;Naturais oh tão naturais&lt;br /&gt;Que em queda se inundam de sombra&lt;br /&gt;E me dizem o que o vento sopra.</content>
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    <title>V</title>
    <published>2004-08-01T09:09:43Z</published>
    <updated>2004-08-01T09:09:43Z</updated>
    <content type="html">&lt;img src="http://photonovas.no.sapo.pt/loving%20the%20odradek%20007.jpg" /&gt;</content>
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    <title>IV</title>
    <published>2004-08-01T09:08:52Z</published>
    <updated>2004-08-01T09:08:52Z</updated>
    <content type="html">&lt;img src="http://photonovas.no.sapo.pt/loving%20the%20odradek%20006.jpg" /&gt;</content>
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    <title>III</title>
    <published>2004-08-01T09:05:51Z</published>
    <updated>2004-08-01T09:05:51Z</updated>
    <content type="html">&lt;img src="http://photonovas.no.sapo.pt/loving%20the%20odradek%20005.jpg" /&gt;</content>
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    <title>II</title>
    <published>2004-08-01T09:03:47Z</published>
    <updated>2004-08-01T09:10:16Z</updated>
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    <title>série casa de banho [loving the odradek] I</title>
    <published>2004-08-01T09:01:59Z</published>
    <updated>2004-08-01T09:01:59Z</updated>
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    <title>A invenção do balão eléctrico</title>
    <published>2004-07-31T22:59:18Z</published>
    <updated>2004-07-31T22:59:18Z</updated>
    <content type="html">Na gorgolejante epístola&lt;br /&gt;                  circunscrevo um apanhado&lt;br /&gt;                  nota irrisória à borda&lt;br /&gt;                  carimbo de improviso&lt;br /&gt;                  distante manejo da caneta&lt;br /&gt;                  pena ausente nesta mente&lt;br /&gt;                  bloqueio continental&lt;br /&gt;                  e arquipélagos,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                  Quero assim percorrer&lt;br /&gt;                  a divisa dos grandes padrões&lt;br /&gt;                  Encontrar erecção&lt;br /&gt;                  num pobre e acanhado gatafunho&lt;br /&gt;                  Desatar a poesia&lt;br /&gt;                  em litanias de especar&lt;br /&gt;                  Desenvolver o âmago, o ar&lt;br /&gt;                  dum balão autónomo e eléctrico,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                  Dou aqui por descoberto:&lt;br /&gt;                  o balão eléctrico, movido&lt;br /&gt;                  por combustão dentro da borracha&lt;br /&gt;                  verde da cobertura,&lt;br /&gt;                  Um fusível estragado na boca&lt;br /&gt;                  que dá para o cesto que carrega,&lt;br /&gt;                  Uma epístola verde&lt;br /&gt;                  de homens verdes vistos assim&lt;br /&gt;                  que os olhos flamejam,&lt;br /&gt;                  O correcto o autónomo o acontecimento&lt;br /&gt;                  que acontece mais cedo ou&lt;br /&gt;                  mais tarde, quando não chegamos&lt;br /&gt;                  a tempo de apagar o incêndio&lt;br /&gt;                  a fé das epístolas,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                  É preciso é ter fé, chamar&lt;br /&gt;                  o empregado para nos trazer&lt;br /&gt;                  um jesuíta e comê-lo com&lt;br /&gt;                  um apetite que não chega nem&lt;br /&gt;                  cedo nem tarde, pois é&lt;br /&gt;                  nunca visto!</content>
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    <title>ultimosuspiro @ 2004-07-31T19:08:00</title>
    <published>2004-07-31T18:08:31Z</published>
    <updated>2004-07-31T18:08:31Z</updated>
    <content type="html">Retenho o ventre da hecatombe&lt;br /&gt;            de carros, acidentes imerecidos,&lt;br /&gt;            um filho penoso de cores &lt;br /&gt;            movimentos ósculos sóis&lt;br /&gt;            a escorrer como fogo no berço.&lt;br /&gt;            O muro contra o qual&lt;br /&gt;            o sexo de alecrim desvendou&lt;br /&gt;            as folhas de ameixa de um ímpeto,&lt;br /&gt;            estando ocupado numa secretária&lt;br /&gt;            como um piano dividido em lumes.&lt;br /&gt;            Caíu a longa peneira&lt;br /&gt;            de meus braços acumulados no cume&lt;br /&gt;            de uma memória em língua&lt;br /&gt;            estrangeira de não usurpar o&lt;br /&gt;            cheiro que me deste numa chávena,&lt;br /&gt;            toda ela deserto, toda ela:&lt;br /&gt;            um tubo de ensaio cheio de ácido&lt;br /&gt;            colorido como o arco-íris.</content>
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    <title>There's no fairytale</title>
    <published>2004-07-31T06:59:40Z</published>
    <updated>2004-07-31T06:59:40Z</updated>
    <content type="html">There's no fairytale&lt;br /&gt;no story of grand union&lt;br /&gt;and Mississipi is coming&lt;br /&gt;for my mouth heating&lt;br /&gt;chamber&lt;br /&gt;needs the water for awaken&lt;br /&gt;tears of mine beneath&lt;br /&gt;the dark...&lt;br /&gt;How I wish to don't see at all, the&lt;br /&gt;fairytale:&lt;br /&gt;no need no game.&lt;br /&gt;There's no fairytale&lt;br /&gt;and my voice echoes&lt;br /&gt;in the woods of&lt;br /&gt;someone's dreams&lt;br /&gt;and my heart is&lt;br /&gt;a cold stone that I&lt;br /&gt;just want to throw&lt;br /&gt;away.&lt;br /&gt;There's no more&lt;br /&gt;fairytale, children, these days.</content>
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    <title>dançávamos no meio da rua</title>
    <published>2004-07-31T06:47:21Z</published>
    <updated>2004-07-31T06:47:21Z</updated>
    <content type="html">dançávamos no meio da rua, as estrelas&lt;br /&gt;            raiadas de luz, que até sucumbíamos&lt;br /&gt;            os corpos decompostos cansados dançando&lt;br /&gt;            até perder o que resta de vida, os cabelos&lt;br /&gt;            alegres indizíveis como se os beijássemos&lt;br /&gt;            com o pólen querido de um entrevisto&lt;br /&gt;            e ternurento membro do corpo, só nosso,&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;            dançávamos de rastos, as ameias da face&lt;br /&gt;            estreladas de indecisão e cotovias,&lt;br /&gt;            labaredas de fogo fátuo, baloiçavam&lt;br /&gt;            nos nossos olhos ardentes apaixonados&lt;br /&gt;            enquanto os outros se despenhavam&lt;br /&gt;            na brancura que não víamos, com os nossos&lt;br /&gt;            olhos só um no outro mesmo quando&lt;br /&gt;            mirávamos admirados a brancura,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;            há sempre um miradouro onde te vejo&lt;br /&gt;            pequeno da cor da flor pequena,&lt;br /&gt;            e dançamos o sol-e-dó, eu com olhos&lt;br /&gt;            ziguezaguentes te levanto o caule&lt;br /&gt;            e te traumatizo apaixonadamente,&lt;br /&gt;            respeitosamente,&lt;br /&gt;            vossa excelência   levanto-te!&lt;br /&gt;            a sua amiga.&lt;br /&gt;            a sua condessa admirável.&lt;br /&gt;            a sua revirada de olhos para&lt;br /&gt;            te torcer as primaveras.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;            te beijo na boca, oh marinheiro&lt;br /&gt;            despedaçante de pétalas, quando chegaste&lt;br /&gt;            de viagem, dançámos acordeons&lt;br /&gt;            eu estava a plantar uma flor pequena,&lt;br /&gt;            enquanto os meus sapatos se mexiam&lt;br /&gt;            e sozinhinhitos! tu regaste o mar&lt;br /&gt;            com o chuveiro da boca, a saliva&lt;br /&gt;            rutilante como uma estrela, parecia&lt;br /&gt;            um oceano de cristal, e eu beijei-te&lt;br /&gt;            a ponta do pé com um caroço na boca&lt;br /&gt;            nasceu-te uma pequena árvore,&lt;br /&gt;            minha pequena flor de miradouro,&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;            não sabíamos nada da vida, dois zeros&lt;br /&gt;            sob o céu de penugem, girando&lt;br /&gt;            atordoados à flor da pele a cafeína&lt;br /&gt;            consumia o terraço auscultado&lt;br /&gt;            do bramido sussurrado do nosso coração&lt;br /&gt;            (pequeno coração geriártico)&lt;br /&gt;            e nós dançávamos o poente, não sei que mais&lt;br /&gt;            os teus olhos cor de lama onde beijo&lt;br /&gt;            o teu pé sujo d'árvore, minha&lt;br /&gt;            flor borboletante, te beijo na boca&lt;br /&gt;            como um antídoto dos barcos de carga&lt;br /&gt;            sou o vento atordoado, meu amor.&lt;br /&gt;            giramos, e tu vens ter comigo&lt;br /&gt;            desligas o céu exaustivo, e me beijas&lt;br /&gt;            oh marinheiro da boca.</content>
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