| Eu, tu, a sombra |
[20 Sep 2004|07:23pm] |
Vieste ter comigo com os braços ensanguentados talvez da penumbra em que te envolveste, por vezes, a penumbra faz com que o corpo se fira, o mistério expedito dos buracos negros, as espirais a remoerem na pele sensível, o som baralhado cheio de ecos na boca fulva da entrega, Vieste ter comigo tinhas a sombria face em ruínas os braços feridos, estragados, lançados para o ar a tristeza de um remorso que te empatou a necessitada simpatia que poderias vir a ter com quem te rodeava, o cansaço de uma tensão que lentamente te foi comendo os músculos já insones, já usados giratoriamente, Não te reconheci o corpo que me dirigias tentando vociferar algumas palavras elucidativas, uma mescla de ti e de sombrio, talvez tenhas escondido a sombra desde os tempos em que primeiro te conheci, talvez tenhas andado com ela dentro dum coração cheio de reboco que não tivesse conseguido aguentar irrespirável até agora que a mostras, Fechei os olhos ainda confusa de me teres interpelado dum modo que eu juraria nunca ouvir a música mais comovente e louca ao mesmo tempo, fechei os olhos e fingi lembrar-me que eras tu que me tinhas acompanhado a primeira visita ao mundo, quando havia muita luz, e eu me admirava ainda a medo, Agora já não havia luz, mas agora também não via nem a ti, nem à sombra, agora fechei os olhos e adormeci um sono tão profundo que apenas acordei quando a sombra desapareceu.
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