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[10 Sep 2004|11:54am]
quis apenas um sol abertas as portas
abertas as flores aberto o céu à ira
aberto o caminho de uma longínqua agulha
a camada da delícia a camada do beijo
o fundo mais ténue de uma luz envolvente

quis apenas conhecer os segredos de um deus
como arrastaria o sol pelos campos
como se voltaria de costas ao poente

vivi em tempo de luz o martírio a cruz
fui poeta embriagado decadente abandonado
recusei as primaveras das nascentes
consumi o discurso de um labor consumado
e de arado cultivei a sépia apaixonada
de momentos desejosos de se encarcerar
nas colinas de um sonho mais profundo

quis apenas um sol uma descoberta um lamento
um toque das ciências que vazam seus dedos
em interditas poeiras que cheiram a alecrim
em ruas desertas em ruas desertas
no mistério da juventude mais em flor que o tempo
que o tempo interditado e contado e consumado
pelas fragas de uma falésia iluminada

quis apenas estragar o tecido da luz
num relâmpago absorver toda a inércia
cantar brevemente uma música resistente
quis apenas um sol abertas as portas
abertas as portas.
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[10 Sep 2004|11:54am]
Varia a época do beijo
Estático sob o tecto memorável
Atrevo-me a desexistir-te
A desexistir-nos
A descobrir artefactos tão óbvios
Na acção manual impensada
Será que o impossível do amor nos faz recordar
Aquele beijo junto ao rio?
Ou o amor eregido num deserto de beijos
Nos faz estimar os únicos?
Atrevo-me
Atrevo-me
Sabes que nunca me contaste de como
Foi aquele beijo junto ao rio?
Que nunca sentiste um arrepio na pele
Ao recordar a existência do meu corpo?
Variam as épocas, os apetites
A necessidade do teu corpo preencher-me
Encher-me de vidro fofo, de relevos
Por tocar o teu
E eu atrevo-me
A desexistir-te
Vou agora
Vou agora recordar pela primeira vez
Aquele beijo que demos na saleta que faz esquina
Com um candeeiro muito largo de ferro forjado
Um candeeiro gigante, um candeeiro que parece
O fantasma duma árvore que parece uma pessoa,
Um candeeiro que tinha uma luz que contornava
A esquina e se deitava na parede de esquina
Da saleta que faz esquina com o candeeiro
De ferro forjado.
Vou morrer
O meu corpo vai desaparecer aos poucos
À medida que me vou recordando daquele beijo
O meu corpo vai aparecer aos teus olhos
Vais-te recordar exactamente, e à medida,
Do meu corpo à frente dos teus olhos
Dentro da tua cabeça
O meu corpo que vais ter vontade de possuir
O meu corpo que nunca existiu
Vou-me recordar pouco a pouco daquele beijo
«Momento de pausa»
Ainda não me recordei
Ainda não me recordei
Vou-me recordar da carícia com a língua
Já não sei se a tua ou a minha
Agora é só a língua
A língua isolada numa carícia
Já não sei se a tua ou a minha
Agora já não há beijo
Agora há só uma pequena parte do beijo
Que se vai desvanecendo
O meu corpo que ia desaparecer vai aparecendo
Vai aparecendo e nunca desapareceu e nunca apareceu
E nunca apareceu aos teus olhos
E o meu corpo desexistiu-se
Atrevo-me
Nós desexistimo-nos
E o meu corpo está aqui como sempre esteve
E tu estás aí
Sossegado em andamento e nunca viste o meu corpo
E eu vou andar, também, um bocado
Passear à beira rio
Atrevo-me
Atrevo-me.
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Não consigo criar a beleza dos adornos [10 Sep 2004|11:55am]
Não consigo criar a beleza dos adornos
Venho do tempo remoto que lançou
O seu ceptro incadescente sobre meus braços
E agora só sei o que calcina
E agora só sei desarmar
E agora venço derrotada a realidade.

Não consigo criar a beleza dos adornos
Não tenho mãos macias de as cuidar
Jamais as multipliquei por mil
Para que o hábito de as verem fizesse com que as amassem
Jamais as levei ao rosto
Para beijá-las solenemente entre as lágrimas salgadas
De um mar amável.

Não tenho os lábios loiros de beijar
As mãos macias de oiro e de magia.

Não tenho a magia
A magia
As canções ou outro dom
Não consigo criar a beleza dos adornos.

Não consigo criar a beleza dos adornos
Responder em tempo móvel à maldade
À maldade que me têm
À maldade que lhes tenho porque não consigo
Não consigo criar a beleza dos adornos.

Não consigo amá-los
Não consigo amar cada um em sua concha
Essas pérolas aquáticas que me cantam
Que cantam sozinhas e com vida
Oh, e que cantam sem mim!
Cantam sem mim e eu não consigo
Não consigo criar a beleza dos adornos.
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